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Quantas balas são necessárias?

Por Ana Raquel Fernandes

 

Os dias se sucedem numa marcha frenética rumo à morte.

A morte é assistida todo dia pelas janelas ou pela TV, e ambas cheiram a sangue.

E no meu coração de poeta, faz-se um desencanto. E logo eu que gosto tanto de cantar minha poesia, me sinto um pouco como alguém que já não vê mais sentido nela.

Os dias são cruéis demais para suportar minha poesia. E se ainda escrevo é porque não consigo fazer o contrário.

Eu pouco assisto ao noticiário, mas o pouco que ouço e vejo, parece um turbilhão de maldade, e isso me fere de uma forma que não sei descrever.

Hoje, por exemplo, vi imagens de colegas meus sendo agredidos pela polícia. Fiquei sabendo também do assassinato de uma vereadora no Rio de Janeiro. As duas mortes me abalaram profundamente. A primeira vem sendo desenhada há anos pelos governantes, trata-se da morte da dignidade do professor da escola pública; a segunda, trata-se de um “cala-boca”, e também, acrescentaria eu, de uma aviso muito claro a todos nós, através da execução da vereadora Marielle Franco, contrária à intervenção militar no RJ e crítica das ações que a PM carioca vinha realizando em algumas comunidades. Morta a tiros. Foram encontradas oito cápsulas no local do crime.

E eu me pergunto: Quantas balas são necessárias para matar um professor? Será que já não bastam todas as investidas contra a classe? Já não basta a banalização do ensino? Já não basta a superlotação das salas? E o salário? Esse basta, não é?

Perdoem-me o tom pessimista do texto dessa semana. Perdoem-me também se ainda insisto na poesia, mesmo diante do terror. Deixo-vos com um poema do mestre Drummond, muito pertinente a esse momento.

 

Sentimento do Mundo

 

Tenho apenas duas mãos

e o sentimento do mundo,

mas estou cheio de escravos,

minhas lembranças escorrem

e o corpo transige

na confluência do amor.

 

Quando me levantar, o céu

estará morto e saqueado,

eu mesmo estarei morto,

morto meu desejo, morto

o pântano sem acordes.

 

Os camaradas não disseram

que havia uma guerra

e era necessário

trazer fogo e alimento.

Sinto-me disperso,

anterior a fronteiras,

humildemente vos peço

que me perdoeis.

 

Quando os corpos passarem,

eu ficarei sozinho

desfiando a recordação

do sineiro, da viúva e do microcopista

que habitavam a barraca

e não foram encontrados

ao amanhecer

 

esse amanhecer

mais noite que a noite.

                       Carlos Drummond de Andrade

 

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões para: sub-ver-siva@hotmail.com

 

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