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Sobre educação e abraços

Por Ana Raquel Fernandes

 

No dia 5 deste mês, iniciei mais um ano letivo. Desta vez, com alunos do sexto ano. E ensinar Língua Portuguesa para pré-adolescentes é uma tarefa incrivelmente desafiadora. Aliás, sobreviver ao caos retrógrado que se tornou esse país já é em si um desafio enorme. Mas a despeito de tudo e qualquer coisa, eu ainda sou uma professora apaixonada pelo meu ofício de sonhar e viver a escola pública no Brasil.

Para desenvolver com competência meu trabalho, tenho em mente o respeito pelos seres humanos que se apresentam curiosos diante de mim e também o respeito por mim mesma enquanto educadora e, por isso, opto sempre por estabelecer uma relação baseada nesse valor. Isso implica ser uma professora “chata” muitas vezes, que cobra organização e cuidado, trabalho e disciplina, porque sim, nessa fase de suas vidas, eles precisam disso, mas uma professora humana acima de tudo.

No dia 5, eu deparei com cerca de 30 crianças assustadas diante de mim. Algumas expressões eram de certo pânico mesmo. E eu não sei se isso se deve à altura da professora em questão, ou ao fato de estarem se sentindo inseguras, uma vez que enfrentavam o desconhecido, saindo de suas escolinhas, na maioria de zona rural, para estudar numa escola grande, com muitas salas e muitos, muitos professores diferentes.

Fui firme, sou firme, continuarei sendo firme. E senti que minha firmeza, pasmem, acalmou o coração de alguns. Eles se sentiram seguros ao se deparar com uma professora séria, exigente e que, provavelmente por isso mesmo, os defenderia de situações desagradáveis e, por vezes, de si mesmos.

E até ouvi de um inspetor que o comentário entre os alunos é que a professora Ana Raquel é brava, mas que isso é bom. E essa fala pode soar contraditória, mas a sala de aula é mesmo um exercício constante de jogo de cintura.

Tanto é que, ao final do primeiro e assustador dia de aula, me surpreendi com a atitude de uma menininha franzina, magrinha, cuja mochila parece puxá-la para baixo, tamanho é seu peso para um corpinho ainda tão frágil.

Eu desci as escadas, depois de aguardar que todos deixassem a sala e verificar se ninguém havia se esquecido de nada.

E o que eu encontrei ao final dela, foi aquela figura franzina da menininha miúda, que olhou pra cima, num esforço enorme para suportar o peso da mochila, e me disse: Tchau, professora Raquel. E enquanto falava, se despedindo, seus bracinhos finos e frágeis tentavam abarcar meus quadris num abraço.

Confesso que foi uma situação um tanto quanto desconcertante. Mas o que há de mais bonito na convivência entre seres humanos é justamente isso, o impacto que o outro pode causar em nós e nós nele.

Já estamos na terceira semana de aula e a figura da professora Ana Raquel já deve estar muito clara na mente dos pequenos, e também na de seus pais, já que costumo fazer questão de mantê-los informados sobre tudo o que acontece em minhas aulas.

O ano está só começando, e eu me maravilho ao pensar o quanto esses pequenos se desenvolverão, física e intelectualmente. Quantas descobertas farão e o quanto minha presença contribuirá para isso.

 

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões para: sub-ver-siva@hotmail.com

 

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