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Afinal, quem é Cris?

Por Ana Raquel Fernandes

 

(Continuação do texto da semana passada)

 

Eu vou direto ao ponto, que não gosto de rodeios, nem de criar suspense desnecessário. Sobre o texto da semana passada e o nome cujo dono não revelei, prometendo fazê-lo hoje... Bom, eu poderia criar aqui qualquer história, sob qualquer desculpa, inclusive a de tentar emocioná-los, mas sabe, o mundo anda tão cruel que não há necessidade de fazê-lo.

Cris poderia ser a cadelinha do lixeiro, e eu estaria quase que plagiando o saudoso Heitor Cony, com sua terna Mila... Cris poderia ser a esposa do lixeiro e daí a pixação apaixonada no caminhão... Sabem, Cris poderia ser qualquer pessoa ou ser desse mundo, e é por esse motivo que eu escolhi que Cris não é ninguém. Isso mesmo, ninguém.

Afinal, nesse país de ninguém, onde a injustiça impera, enquanto a pobreza aumenta a olhos vistos sob as vistas grossas dos senhores engravatados, não passamos de ninguém. E ai se ousarmos tentar ser alguém ou desejar um pouco mais de justiça e igualdade para todos, enquanto irmãos... ah... bobagem, nem vale a pena, não é mesmo?

E ao afirmar que Cris não é absolutamente ninguém, eu reitero que Cris somos todos nós, os esquecidos, os renegados, os brasileiros aos quais esse país e sua corja governante desrespeitam diariamente.

Cris é só mais um nome, quando não um número, Cris realmente não importa. Talvez seja mesmo só mais uma res caminhando rumo ao matadouro travestido de esperança que lhe oferecem esses homens desprovidos de brio e caráter.

Cris não compreende o porquê disso tudo, o absurdo do mundo lhe assusta.

E olha que ela nem nasceu ainda. Do conforto do ventre materno, Cris mal supõe as dificuldades pelas quais seus pais passam. Não, o pequeno feto amado não terá a mesma sorte de outros, ao nascer num lar abastado, confortavelmente pensado para que ele se desenvolva em toda sua potencialidade, e mais tarde sirva de exemplo para a teoria vergonhosamente falha da meritocracia.

Cris não vai nascer e as letras pixadas na traseira do caminhão de lixo ficarão ali para lembrar-nos disso. Cris não chegou a nascer.

Matamos nossos filhos antes mesmo que eles nasçam nesse nosso país vergonhoso. E a cada dia, infelizmente me convenço mais de que a tendência é que haja mais matança, mais mortandade.

Herodes invejaria esse meu país que diariamente mata pessoas, sonhos, ideologias e esperanças.

Mas o engraçado disso tudo é que mesmo diante da morte, eu ouso não me render. Antes, eu permaneço firme, forte, impregnada de sonhos tal qual a tinta com que Cris foi escrita permanece na lataria do velho caminhão.

E eu choro por todos nós, eu choro pela Cris, que eu ainda nem sei se seria Cristina ou Cristiane... Eu choro por amar tanto esse país e seu povo, sem que eles se deem conta.

 

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões para: sub-ver-siva@hotmail.com

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