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CRIS

Por Ana Raquel Fernandes

 

Era uma quinta-feira de férias e eu dirigia rumo à minha aula de pilates, por volta de umas 7h15 da manhã. A esse horário o trânsito ainda flui bem na Avenida dos Imigrantes, e isso acrescido do fato de estar um dia lindo, já bastava para que eu me sentisse grata e feliz por estar indo ao encontro dos meus exercícios tão necessários.

Eu ia dirigindo e pensando em um monte de coisas, não sei se já comentei isso aqui, mas tenho um cérebro atormentado, sou ansiosa, e sempre me pego pensando em um zilhão de coisas ao mesmo tempo...

Eu pensava na febre amarela e em como o crime de Mariana pode ter contribuído para que essa epidemia se instaurasse, pensava também em como a mídia televisiva subestima a inteligência dos brasileiros, quando sugere, com a maior cara de pau, que os produtos baixaram de preço nos supermercados. Pensava que logo iniciarei mais um ano letivo e tentava imaginar os rostinhos dos alunos que me aguardam para ser sua professora. Pensava inclusive sobre o que escrever na Sub-versão essa semana...

Foi quando uma cena, pousada em minha frente, atropelou todos esses meus pensamentos e gerou um único e novo. O carro que estava na minha frente entrou numa rua à direita e me deixou atrás de um caminhão de lixo. Ainda vazio, só o motorista mesmo, os garis ainda não ocupavam a parte traseira dele. E foi aí que eu vi aquilo que roubou por alguns instantes minha atenção e meu pensamento. Havia um nome escrito com spray, corroendo de afeto a ferrugem do caminhão cansado do trabalho árduo. Era: Cris.

A princípio eu pensei “Será que foi uma tentativa falha de escrever Cristo?” Não, logo percebi que não. Havia outro “Cris” apagado, mas ainda visível aos olhos mais curiosos como os meus logo ao lado.

Pronto, estava feita a festa para o meu cérebro, que logo começou a cogitar milhões de hipóteses, dentre as quais: “Quem era Cris?” “Tratava-se de um homem ou uma mulher?” “Seria a “crush” de um dos garis, ou a esposa, namorada ou ficante?” “Era jovem?” “Como eles haviam se conhecido?” “Será que era amor?” “Será que era recíproco?”

Bom, poderia ser apenas a assinatura do pixador também, mas confesso que prefiro essa versão romantizada.

Pois é, eu disse-lhes que tenho um cérebro um tanto quanto atormentado... Mas sabem, aquela “pixação” na traseira do caminhão de lixo soou pra mim como um lembrete, quase como uma afronta. Quase sempre o inesperado nos lembra de nossa humanidade, de nossa capacidade imaginativa e daquilo que esquecemo-nos de observar em nosso cotidiano tão cheio de pressa e desatenção.

E eu não sei com relação a vocês, mas eu enxerguei amor naquele lugar em que normalmente só enxergamos sujeira e mau cheiro. 

Não me perguntem quem é a Cris ou o Cris, que eu realmente não sei. Mas já imaginei uma história, e semana que vem ela estará aqui.

 

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões para: sub-ver-siva@hotmail.com

 

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