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Agora, é retroceder!

Por Ana Raquel Fernandes

Um menino de oito anos desmaiou de fome em uma sala de aula do Distrito Federal semana passada. E quando eu li essa notícia, algo em mim se quebrou.

Não, isso não tem nada a ver com o fato de eu ser professora. Isso tem a ver com o fato de eu ser um ser humano.

E me desculpem, mas sinto um sentimento de asco corroer meu coração quando assisto na TV um calhorda dizendo que estamos nos trilhos e que, portanto, agora, é avançar. Eu sinto muito, mas enquanto houver uma só criança passando fome nesse país, tudo que consigo enxergar é um retrocesso absurdo.

A propaganda oficial é uma afronta à inteligência de qualquer um de nós, brasileiros, que diariamente temos visto os preços subirem exorbitantemente, enquanto perdemos nossos direitos.

Uma criança desmaiou de fome numa escola, e eu que amo crianças e escolas e igualmente esse país tão tristemente injusto, senti meu coração apertado, porque a fome de um ser humano é uma ofensa sem tamanho. A fome que leva uma criança a perder os sentidos me ofende enquanto ser humano, e eu sinto, mais uma vez, a raiva de termos falhado enquanto irmãos.

E enquanto esse sentimento horroroso toma conta do meu ser, eles estão celebrando com champanhe sua última falcatrua, ou pensando em quanto dinheiro liberar desta vez para comprar seus cúmplices nesse jogo de morte.

E eu insisto, eu não consigo conceber que uma criança desmaie por fome nesse país tão rico. É odioso pensar que isso ainda acontece, e na capital do país, aos olhos daqueles que deveriam zelar pela nutrição e pelo pleno desenvolvimento de nossos pequenos.

É mais odioso ainda pensar que certamente esse é apenas um dos muitos casos de fome nesse país cruel, talvez apenas tenha sido divulgado, só isso. E os anônimos? E os recônditos desse país aonde a mídia não chega?

Sabem, diante disso, meu asco só aumenta e a propaganda oficial soa ainda mais hipócrita aos meus ouvidos cansados de tanta mentira... É muita canalhice! Simplesmente não consigo encontrar outro adjetivo mais adequado.

Estão negando a nossas crianças muito mais do que apenas o direito à alimentação e nutrição adequadas, estão lhes roubando também o direito de desenvolverem-se intelectualmente. Estão lhes roubando o direito básico de serem crianças e desenvolverem-se plenamente com todo potencial que carregam dentro de si.

Eu chorei junto com aquela professora, porque talvez eu compartilhe da sua dor e certamente da sua raiva por ter que presenciar algo assim. Mas, sabem, meu choro não atinge os poderosos, eles seguem avançando e acho mesmo que o Brasil que eles afirmam estar nos trilhos, esse Brasil ainda vai nos esmagar a todos sob suas rodas. A todos nós, os pobres criados por eles, e até mesmo aqueles que, iludidos, supõem pertencer à dita classe média. Ah, meus queridos, o Brasil não é país de média, é país de abismos.

Uma criança desmaiou de fome numa escola, por isso, meu coração hoje já está um tanto quanto macerado.

Ana Raquel Fernandes é Professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões para: sub-ver-siva@hotmail.com

 

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