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O que o vento me traz

Por Ana Raquel Fernandes

Uma noite dessas não consegui dormir. Ventava tanto, que os varais onde havia, à tarde, pendurado as roupas que lavara, batiam furiosamente contra a janela do meu quarto e interrompiam, sem piedade, meu exercício de sono. Eu tentava fingir que logo passaria, que era uma batidinha ou outra só, porque a preguiça de levantar da minha cama era quase que maior que meu desconforto por causa do barulho, mas... o vento simplesmente não cessava, e eu fui ficando irritada, até que resolvi abrir a janela do meu quarto e acabar de vez com aquilo, por ali mesmo. A solução que encontrei foi amarrar, com uma toalha de rosto, um varal ao outro, deixando os dois longe o suficiente de minha janela, e voltei a tentar dormir.

Você deve estar se perguntando o que essa história de vento tem a ver comigo? Ou, por que a Ana quis relatar essa história assim tão sem graça e sem aparente sentido algum. Pois bem... O vento daquela noite insone me mostrou algo.

Acho até que foi Ele quem o direcionou à minha janela, me incomodando, para que eu compreendesse, que por vezes, é preciso levantar-se e fazer algo e não ficar culpando as circunstâncias pelo seu descontentamento. Ele, o Senhor dos Ventos, sabe como incomodar corações e mentes, a ponto de moldá-los ao seu caráter. E foi assim que Ele fez há mais de dois milênios com o jovem casal, Maria e José.

E o vento daquela noite me lembrou da sensação que tenho todo final de ano. E você, leitor, pode até me considerar uma louca desvairada, mas eu sinto, todo ano, a chegada deles. Eu sinto no vento e no cheiro dele, que eles já começaram sua jornada, jornada esta que os distanciará dos homens e de sua maldade, e os conduzirá ao encontro do coração do próprio Deus.

Jesus já é um bebê formado dentro do ventre da mãe Maria. Maria sente dores e cansaço. As câimbras são constantes, e viajar num jumento não facilita muito as coisas. Além do mais, são imigrantes, pessoas mal quistas e mal vistas pela sociedade.

Eles estão vindo... e gostaria até de pedir que você me enviasse um e-mail, me contando se por acaso você também se sente assim.

Eu quase que posso ouvir seus passos, eles estão a caminho, mais uma vez.

Você consegue enxergar a dimensão disso? A jovem cujo útero e coração foram feitos morada do Eterno, e seu esposo, cuja fé foi violentamente provada pela ação do Espírito de Deus... eles estão chegando.

E eu não sei se choro ou me prostro diante da beleza infinita desse cenário, que todo ano se apresenta aos meus olhos e alma.

A coragem de ambos em cumprir a vontade daquele que os amou desde o começo me constrange e emociona, e o vento me traz a boa nova de que a esperança ainda resiste, apesar de tudo.

Eles virão e o menino-Deus nascerá, e pouco importa se os homens não lhe cederam lugar mais adequado, porque Ele se revela mesmo na simplicidade e na pobreza.

Eles já estão a caminho e trazem com eles, além do Salvador, uma multidão de esfaimados, maltrapilhos, cegos, surdos, leprosos, coxos, ladrões, prostitutas e toda aquela gentalha a quem o mundo odeia, mas a quem o Senhor ama profunda e insanamente.

Cada pulsar do coração do pequeno Messias, ainda no recôndito bendito do ventre de Maria é dedicado a eles. Eles são a razão de sua existência e a menina dos olhos de Seu Pai.

Eles estão vindo, apresse-se para que eles encontrem ao menos um pouco de gratidão no terreno de seu coração e prepare uma refeição gostosa e ponha a mesa com carinho e esmero, porque, em breve, o Rei dos Reis estará entre nós.

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões para: sub-ver-siva@hotmail.com

 

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