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Hoje eu não vou falar de política

Por Ana Raquel Fernandes

Eu não vou falar de política, não, hoje não.

Não acho justo, não acho interessante gastar meu léxico com esse assunto assim já tão batido.

Não, hoje, eu não vou, de jeito maneira falar de política.

Eu vou abstraí-la do meu pensamento, tal qual fazem os governantes com as mazelas de seu povo. Não, não adianta insistir, que hoje, hoje eu não vou falar de política.

Hoje, só hoje, eu não quero me lembrar desse assunto torpe, antes, quero engoli-lo, a palo seco, garganta abaixo, cortante como navalha. Faço questão, depois, de digeri-lo e transformá-lo num lindo bolo fecal, que porei para fora de meu corpo surrado, ao obrar.

Não, hoje eu não quero o desaforo da constatação de que vivo num país-piada, nem a vergonha de me sentir de alguma forma parte disso tudo.

Hoje eu quero a paz do cochilo depois do almoço, da mente vazia de informações ou desejos. Eu quero a bestialidade de ser indiferente ao caos.

Não, hoje eu não vou falar de política. E nem quero saber quem foi preso, ou melhor, quem foi absolvido. E quer saber? Eu já perdi a conta dos milhões roubados. Minhas retinas nunca, nunca, verão tal quantia. E às vezes eu sinto que nem sei mesmo do que se trata uma cifra assim.

Hoje, eu quero alimentar os pombos na pracinha, como Zé Geraldo.

Eu quero que o som doce da poesia de Zé Geraldo prevaleça em meio aos gritos dos famintos e injustiçados. Eu quero a libertinagem de ser e permanecer poeta, nesse país que já não me inspira verso algum.

Hoje, definitivamente, eu não vou falar de política. Ela, se quiser, que venha falar comigo, e traga um vinho, porque não sou obrigada a aturar seus absurdos, sã. E me puxe uma cadeira confortável ou me permita deitar em seu sofá, enquanto discutimos o futuro daquilo que não pode ser.

Mas, que não me venha com intimidades, porque simplesmente não posso ser sua amiga, visto que há muitas questões discrepantes entre nós.

Não, hoje, só hoje, eu não vou falar de política!

 

 

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões para: sub-ver-siva@hotmail.com

 

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