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Professora

Por Ana Raquel Fernandes

Eu não queria, mas preciso escrever sobre os professores. Eu não queria, mas não consigo ficar indiferente à morte horrorosa daqueles pequenos e de sua professora em Janaúba, Minas Gerais.

Sabem, sempre que morre uma criança, seu professor morre um pouco também. Toda vez que uma criança é violada, seu professor se sente um pouco violado também.

Nós professores, gente de carne e osso e boletos a pagar, assim como você, só diferimos mesmo é na dose do sonho. Por isso, toda vez que uma criança é acometida por qualquer tipo de violência, seja ela doméstica ou governamental, nós, seus professores somos violentados também.

É complicado definir nossa função na sociedade, já que nos delegaram tantas e tão variadas funções, mas eu sou do tipo de professora que, além de ensinar a norma culta da Língua Portuguesa ou a variedade de registros linguísticos, gosta também de educar almas. E é por isso que, quando me deparo com uma notícia como essa, dessas crianças que tiveram seus corpinhos e sonhos consumidos pelo fogo, meu coração de professora se entristece profundamente.

Eu não era professora daquelas crianças, mas é como se o fosse. E eu entendo o ímpeto que moveu a companheira Heley de Abreu Silva Batista, quando, mesmo envolta em chamas, tentava salvar seus pequenos.

Parece mesmo que professor nunca desiste, não é? A gente sempre tenta, contra tudo e contra todos, cumprir o nosso papel. A gente vai contra a idiotice governamental, a gente transgride algumas regras sem sentido, a gente insiste, quando não parece haver motivos para continuar, e a gente não consegue salvar a todos, é verdade, mas a gente está sempre tentando.

Ela tentou até o final. E eu a compreendo perfeitamente. Seus pequenos jamais deveriam passar por aquilo, jamais. E quando morre uma professora, algo em mim morre junto com ela, mas no caso específico da professora Heley, algo em mim renasceu. Pode parecer contraditório, mas da dor daquela professora e de seus pequenos, renasceu um pouco em mim a crença naquilo que ainda nos resta de humanidade.

Então, nesse quinze de outubro, data em que supostamente comemora-se nosso dia nesse país que amo, mas que não me respeita nem enquanto cidadã, nem enquanto professora, eu sugiro que você eleve ao professor dos professores uma prece, ou simplesmente permaneça em silêncio e reflita sobre a educação em nosso país, e se quiser, agradar o professor de seus filhos com uma lembrancinha, o faça, porque gostamos desses mimos. Como eu disse anteriormente, somos seres humanos como você, só um pouquinho mais subversivos, talvez.

 

Texto em memória da professora Heley de Abreu Silva Batista e de seus pequenos, e também em memória de todos os professores que veem seu trabalho e seus sonhos destruídos diariamente por uma política perversa.

 

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões: ana1liugar@yahoo.com.br

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