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A mãe passarinha

Por Ana Raquel Fernandes

Eu vi uma mãe passarinha, tentando recolher seu filhinho do chão.

Era um final de tarde agitado no centro da cidade, trânsito cruel, aloprado. E eu, com esses meus olhos grandes que Papai me deu, vi uma mãe aflita, num exercício desesperado de tentar puxar seu filho para mais perto do meio-fio. Parece loucura, mas foi a cena mais tocante que vi ultimamente. Eu vi e parei o carro.

Parei, num reflexo muito rápido para evitar passar por cima dos dois, nem pensei se o carro que vinha atrás podia bater no meu ou ainda me julgar louca, por parar assim, sem nenhum motivo aparente. Eu parei, e ela ainda tentava, com toda sua força e desespero, afastar seu filho do risco de ser morto por algum pneu enfurecido.

A pressa da vida, a pressa das pessoas, a pressa do trânsito que parece que tem mesmo que fluir, a despeito de qualquer coisa me fizeram seguir. E eu abandonei aquela mãe e seu filho ali, no asfalto. Eu confesso que ainda olhei várias vezes pelo retrovisor, tentando enxergar se estavam a salvo. Confesso que me arrependi de não ter descido do carro e ajudado. Não se pode jamais ignorar uma mãe.

Aquela mãe passarinha, desesperada e forte, como toda mãe, significou para mim a metáfora do amor diligente. Afinal, o que era ela, assim tão aparentemente frágil e pequenina diante da fúria do trânsito da cidade, em sua hora de maior movimento. O que podia ela contra a esmagadora presença de assustadores, gigantes pneus, que tocavam o chão com crueza, e que podiam, a qualquer momento atingir seu filho já machucado.

Ah... meus queridos, o que uma mãe pode, em defesa de seus filhos, é imensurável. As mães têm o coração agigantado pelo amor que Ele mesmo lhes concedeu.

Aquela mãe passarinha era a própria imagem do Eterno!

Aquela mãe passarinha era Deus me relembrando que Ele nunca, nunca desiste daqueles a quem ama. Ele nos resgata constantemente de nós mesmos. Se preciso for, Ele nos arrasta, tal qual a mãe passarinha, para mais perto dele, afinal, embaixo de suas asas é onde podemos finalmente nos sentir seguros.

Aquela mãe passarinha demonstrava o mesmo amor obstinado e insano com que Ele nos ama. Ela não desistia de resgatar do caos seu filho machucado.

E é assim que Ele nos enxerga, como filhos machucados pelas dores da vida, a quem ele amorosamente resgata.

Eu nunca vou me esquecer daquela cena da mãe passarinha e seu filhinho. E toda vez que ela me vier à mente, será como ouvir da boca do Altíssimo que ele me ama.

 

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões para: ana1lugar@yahoo.com.br

 

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