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A dor nossa (anônima) de cada dia

Por Ana Raquel Fernandes

Ela desmarcou um compromisso. Um compromisso com milhares de fãs, alguns dos quais esperavam a vida inteira para ter a oportunidade de assistir a um show dela. E que decepção deve ter sido para eles o anúncio de que Lady Gaga não faria mais o show no Rock in Rio.

Situação mais chata essa, desagradável, há quem fale até em desrespeito para com os fãs.

Mas a questão é que ela desmarcou o show por um motivo de saúde. Lady Gaga sofre de Fibromialgia. Isso mesmo, para aqueles que desconheciam esse fato, ela anunciou ao mundo que sofre dessa síndrome dolorosa, e ainda sem cura.

E eu sou grata a ela por isso, e acredito que muitos doentes também o sejam. Quando se sofre de uma doença dolorosa como essa, quase sempre nossa dor fica no anonimato ou é alvo da descrença dos demais. Mas quando uma celebridade como Gaga vem a público com sua dor a tiracolo, parece mesmo que o mundo para e se compadece um pouco, e mais, informa-se um pouco mais sobre a doença, que é real e atinge mais de 5 milhões de pessoas só no Brasil, a maioria, mulheres.

Trazer esclarecimento sobre a doença é, a meu ver, um importante passo rumo à conscientização de sua existência e, quiçá busca pela descoberta da cura.

A dor da diva é a mesma dor de milhares de pessoas anônimas, desacreditadas, e, muitas vezes, tidas como mentirosas.

Gaga desmarcou um compromisso, se é que se pode encarar assim, e eu, enquanto fibromiálgica (apesar de na maioria das vezes me recusar a lembrar disso), sugiro a você, leitor, mesmo que tenha a sorte de não ser portador dessa doença, que vez por outra ouse também desmarcar alguns compromissos. Ouse dizer: “Não, eu não estou bem”, ou “Não eu não quero”, “Não, eu não estou com vontade...”

Sabe por quê? Porque uma das coisas que aprendi com a Fibromialgia é que o único compromisso que não posso jamais desmarcar é aquele que estabeleci comigo mesma. Parece egoísta, mas é libertador e necessário. Então, hoje enxergo a vida com mais simplicidade e certo “egoísmo” e me permito, vez por outra, desmarcar certos “compromissos”, ou ainda, nem sequer os marco.

Sabem, a vida é muito curta para que façamos dela uma lista infindável de compromissos. Nosso compromisso maior deve ser conosco mesmo e com aquilo que acreditamos.

Obrigada, Lady Gaga por trazer à tona nossa dor. Logo você estará de volta aos palcos, por que, afinal, a vida de todos nós é assim mesmo, não é? Um dia bom, outro nem tanto, mas todos vividos com a mesma paixão.

Aos fãs, que perderam a oportunidade de vê-la, eu realmente sinto muito e consigo, num exercício de empatia, colocar-me no lugar de vocês... é, realmente foi muito chato.

Mas aqueles que a amam, compreenderão.

E é assim, com todos os fibromiálgicos anônimos, categoria em que me encaixo. Quem nos ama, queridos, nos compreende. E a luta pela conscientização da doença e busca por sua cura segue firme e forte, agora quem sabe com a força extra de uma fibromiálgica famosa.

 

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões para: ana1lugar@yahoo.com.br

 

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