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Antes do sinal...

Por Ana Raquel Fernandes

A morte é mesmo traiçoeira. Há quem diga que ela é sempre pontual, eu contesto essa ideia. Eu a considero cada vez mais, um ser aproveitador e cruel. Não fosse assim, ela não ceifaria meus queridos tão cedo.

Ela é um parasita imundo, que suga a vida daqueles que mais a detêm em si. Ela leva, com a força de um vento impetuoso aqueles de quem não gostaríamos de ter de nos afastar nunca.

Fernando Pessoa dizia que ela é apenas a curva na estrada, e eu ouso discordar do genial poeta. Não, ela não é apenas a curva na estrada, ela é a própria estrada, onde vida e morte se confundem, entre obstáculos e quilômetros. Ela é a culminância da vida. Mas quem é que disse que estamos preparados para a vida plena?

Naquele dia, a morte se apresentou a mim sob uma das formas mais cruéis com que ela poderia se apresentar. Ela chegou até mim sob a face rosada de um menino, um jovem, mas que para mim sempre será um menino. E eu confesso, não estava preparada para aquela visão.

Foi como um soco no estômago. Foi como se minha própria existência se visse confrontada por aquela presença indesejável.

Eu fora sua professora. Eu ainda desejava continuar sendo sua antiga professora. Não era justo, não era razoável, não era a hora.

Como é que ele podia partir assim, sem nem mesmo uma última conversa, um último visto no caderno, o último ressoar do sinal... Não, a aula ainda não havia acabado. Eu preciso aprender mais, mais sobre a vida e seus mistérios insondáveis. E eu preciso dos meus amados alunos para me ensinar sobre eles e sobre como ser um ser humano melhor a cada dia.

Eles simplesmente não podem partir antes de mim. Eu tenho que ser, assim como sempre fiz na escola, a última a deixar a sala.

Eu preciso me certificar de que eles não se esqueceram de nada e de que não vão arrumar confusão com ninguém na saída.

E eles sempre se esquecem de algo. Gabriel, o adorável menino das bochechas vermelhas, educado como era, pasmem, esqueceu-se de se despedir de mim. E pior ainda, esqueceu-se de me ensinar a lidar com a dor de não tê-lo mais aqui.

Fernando Pessoa que me perdoe pela audácia, mas não, ela não é apenas a curva na estrada. Ela roubou toda a beleza da estrada, ela descoloriu a paisagem linda que os olhos sensíveis de Gabriel capturavam com tanta doçura.

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões para: ana1lugar@yahoo.com.br

 

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