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NÃO ESPERE!

Por Ana Raquel Fernandes

Às vezes o cotidiano nos surpreende, talvez porque cada dia seja às vezes tão igual a tantos outros, que nossa alma tão fatigada dos pesares do mundo, por vezes, retém o olhar perdido em alguma fagulha de poesia, que se nos apresenta emaranhada à rotina.

Aconteceu, mais uma vez, comigo dias atrás. Estava vivendo um dia aparentemente normal, indo a uma casa lotérica logo pela manhã pagar uma conta. Porque, sim, as contas fazem parte do nosso cotidiano às vezes medíocre, porque o dinheiro rege nossas relações com o mundo, porque é necessário, bom e mau, mas sempre necessário.

A fila estava meio longa já, apesar de ainda ser cedo. As obrigações pedem pressa e gente humilde gosta de pagar tudo em dia. Detesto filas, por isso, comecei meu costumeiro exercício de observação. Meus olhos curiosos percorriam todo o espaço e seus figurantes, quando de repente, não sei se por serem apurados olhos de professora de língua portuguesa, depararam com uma curiosa placa, que dizia: ESPERE SER AMADO.

Eu ri por dentro, consciente da ausência do dígrafo “CH” e da ironia feliz que tal falha causara. E pra mim, foi o que bastou para o início de uma longa reflexão solitária a respeito do assunto.

E pensei, quantas pessoas teriam reparado na tal placa, e quantas ainda teriam tido o mesmo devaneio que eu?

Quantas pessoas têm obedecido cegamente o imperativo errôneo da placa desgastada: ESPERE SER AMADO. 

Espere ser amado, para então, amar. Espere gentileza, para ser gentil. Espere educação, para ser educado. Espere lealdade, para ser leal. Espere, espere... Coisa mais inerte esperar... E por que esperar sempre que o outro dê o primeiro passo em direção a você? Por que esperar dos outros mais do que aquilo que podem nos oferecer? Por que de todo esse amor tão mesquinho e interesseiro, que só dá aquilo que recebeu antes, e segue devolvendo gestos repetidos e cansativos ao invés de reinventar-se todo dia, incondicionalmente?

Viver a espera de viver deve mesmo ser muito triste. Esperar ser amado então, nem se fale. É sobrevida apenas.

Você, leitor, pode me considerar uma maluca, que faz reflexões baseadas na leitura de placas desgastadas e estar rezando pra nunca me encontrar numa casa lotérica, mas, que lição bonita eu aprendi naquela manhã tão igual a tantas outras, de fila, contas e vida!

Não espere, por favor, não espere...

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões para: ana1lugar@yahoo.com.br

 

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