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Um dia...

Por Ana Raquel Fernandes

Estou tomada por um sentimento de paralisação e desesperança. Sim, infelizmente, é assim que me sinto diante da situação de nosso país. Mas ainda me resta alguma lucidez em meio a esse caos todo. Meus olhos, grandes e vivazes ainda são capazes de enxergar muito nitidamente os culpados.

E não, não há heróis ou mocinhos nesse enredo. Temos vivido dias de atrocidades diárias. E eu quero e preciso manter viva minha capacidade de ainda me indignar com isso tudo. Mesmo que meus sentidos já pareçam estar um tanto quanto inertes, tamanha é a velocidade das notícias escabrosas que chegam sem parar, eu preciso e quero manter-me alerta, para um dia, contar a meus netos o horror dos dias que vivi nesse país que amo.

E eu espero sinceramente que até lá as coisas tenham mudado um pouco, que meu povo tenha finalmente assumido seu lugar, que os canalhas, todos, todos esses caras-de-pau, que falam ao povo com tal desfaçatez que me enoja, todos eles tenham sido punidos, e mais, que tenham ressarcido meu povo aquilo que lhes roubou por anos e anos.

Eu espero que um dia, possa contar a meus netos que houve justiça sim, com provas no lugar de apenas convicções, que a mídia não mais se deixou comprar pelo dinheiro sujo de sangue daqueles que são lesados por toda essa corrupção. Eu espero que eu possa contar também, ensinando-lhes que a corrupção começa quase que imperceptível, nas pequenas ações do dia a dia, e dizer-lhes-ei que seria uma avó muito orgulhosa se eles nunca, nunca escolhessem ficar com troco a mais no mercado. Sim, porque tudo é uma questão primária de escolha.

Mais que tudo isso, eu desejo que as gerações futuras saibam reconhecer os esforços daqueles que, chamados de vagabundos, saíram às ruas, clamando por justiça. Que o grito daqueles em quem os policiais quebraram seus cassetetes seja ouvido por muitas gerações ainda, e que um dia, tenhamos um presidente íntegro e corajoso o suficiente para não precisar esconder-se atrás da truculência das forças armadas na tentativa de manter seu povo subserviente.

E digo mais: Eu quero poder assistir a muitas manifestações ainda, com direito a vidraças quebradas, sim, porque minha consciência não me permite considerá-las um bem mais valioso que a vida do meu povo. Eu quero fogo e quero revolta, genuínos. Eu quero que essa classe política asquerosa, ao menos por um instante, tema o povo que tem.

Eu quero um dia poder contar sobre esses dias estranhos, sobre essa névoa que se apoderou do Brasil que amo. E quero também poder perceber que ela passou...

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões para: ana1lugar@yahoo.com.br

 

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