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Escrever é contar história

 

Por Paulo Botelho

Maria Laura, uma leitora desta coluna, me escreve um e-mail solicitando orientação sobre escrita ou de como narrar uma história. Ela é professora de Português; daí o meu grande risco!

Dia desses, li a seguinte frase contida em um livro policial escrito por um incensado escritor brasileiro, mas que prefiro não nomear: “Ele se sentou, impassível, ao lado do cadáver, esperando pelo médico legista tão pacientemente quanto uma pessoa espera por um sanduíche de presunto e queijo”.

Se existe alguma conexão esclarecedora neste parágrafo, não consegui fazer. Como resultado, fechei o livro na página 19 sem ler mais nada. Se um escritor sabe o que está fazendo, eu continuo lendo. Se não souber, não tenho tempo a perder com maus-escritos. Posso até lê-los. Mas, faz tempo que já dobrei a casa dos 60 anos.

A narrativa pobre deixa o leitor confuso e míope. A narrativa exagerada o enterra em detalhes e imagens. O segredo é encontrar um bom meio-termo. Também é importante saber o que narrar e o que cortar. Concentrar-se no trabalho principal, que é contar uma história.

A boa literatura é uma ciência tão exata quanto à geometria. Veja, a seguir, um parágrafo muito bem escrito:

“Havia também pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor”. (“Missa do Galo” – Conto de Machado de Assis).

Certa vez, o compositor Tom Jobim encontrou-se com o poeta Carlos Drummond de Andrade. Jobim pediu a ele a indicação de um bom dicionário da Língua Portuguesa.  Drummond redarguiu: “Quem escreveu e compôs Águas de Março não precisa de dicionário”.

E quase sempre vem a pergunta que me fazem: “Quando e como você escreve?”

Quando estou trabalhando em um texto, tento escrever todos os dias, exceto aos domingos. Não trabalho no domingo. Trabalhar no domingo dá azar. Às vezes, acabo trabalhando no domingo, mas tenho azar assim mesmo.

 

Acho importante, cara leitora, a composição de texto que tenha ressonância; algo que possa ficar na mente e no coração do leitor.

É lendo muito que a gente aprende a escrever melhor. E escrever diz respeito somente ao que se passa entre o leitor e a página.

Paulo Augusto de Podestá Botelho é consultor de empresas e escritor. www.paulobotelho.com.br

 

 

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