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Quando me flagrei reproduzindo um pensamento machista...

Por Ana Raquel Fernandes

 

Era para ser apenas uma postagem numa rede social... Não, não era apenas uma postagem, ao menos não era uma postagem inofensiva.

Era um tapa na cara. Foi a constatação de que não estou ilesa das consequências de uma educação carregada de valores machistas, nem mesmo eu, que me julgo tão feminista.

O texto da referida postagem era simples, tratava da história de um pai e seu filho, que sofrem um terrível acidente de carro, que vitima o pai. O garoto é socorrido e levado a um hospital, onde seria atendido pelo membro mais competente do corpo de cirurgiões, que, para espanto de todos, diz:

- Eu não posso atender esse garoto. Ele é meu filho!

E foi justamente após essa fala que percebi, assustada e envergonhada, o quanto minha mente, aquela mesma que eu julgava ser tão livre e intacta de qualquer preconceito de gênero, está na verdade impregnada de uma visão machista da vida e das circunstâncias que ela nos apresenta.

Ao ler a última frase do relato: “Eu não posso atender esse garoto. Ele é meu filho!”, comecei a pensar... Ué, se o pai do garoto está morto, quem é que o está atendendo?

E logo tomada por um “farisaísmo” medonho, ousei dizer: - Ah, entendi! Era Deus quem estava naquela sala de cirurgia...

Que Ele tenha piedade de mim por tanta estupidez...

E há quem imagine outras versões também, como a de que o menino não fosse filho biológico do pai morto ou que a mulher o houvesse traído, enfim...

Ledo engano, só depois é que me dei conta do quão estúpida havia sido.

Como é que respondi assim, tão prontamente? Como é que deduzi que a pessoa (a mais competente daquele hospital) não poderia ser uma MULHER?

Sim, uma MULHER, uma minha irmã e semelhante.

Por que é, que mesmo inconscientemente, não relacionei um cargo alto à figura de uma MULHER? Por que, instintivamente, não relacionei a mais alta competência à uma MULHER?

O que há de errado comigo, afinal?

E naquele dia eu compreendi que há questões muito mais profundas em nós do que nosso ego permite supor.

Naquele dia, eu reconheci o peso e as consequências da educação que recebemos e de como ela se enraíza em nós, sem que nos demos conta.

E me senti envergonhada. Na verdade, me sinto envergonhada ainda.

O que fizeram conosco? Sou uma MULHER que ainda de forma inconsciente não é capaz de reconhecer seu valor enquanto MULHER.

O caminho a percorrer é longo. É preciso que nos desfaçamos de anos e anos de uma doutrinação equivocada.

E isso me leva a pensar na forma como devemos educar as futuras gerações, afinal, se é difícil remediar um dano, talvez seja mais fácil e prudente evitá-lo.

E a pergunta que ainda ressoa em minha cabeça é: Como então posso eu ousar comemorar o dito “Dia Internacional da Mulher?”

 

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões: ana1lugar@yahoo.com.br

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