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Eu, Chico, e um dia comum a tantos outros

Por Ana Raquel Fernandes

Era um dia comum, como tantos outros, marcado pelo trajeto ao trabalho. Trajeto diário, comum, mas nunca idêntico aos demais. Raramente mudo de trajeto, o que é um erro, porque meu cérebro precisa exercitar-se de vez em quando, mas não havia naquele dia feito alteração alguma ao trajeto ao qual estou habituada.

A vida seguia seu fluxo incontrolável, e eu chego a considerá-la muito previsível às vezes, mas na verdade, sou eu quem a preencho de compromissos.

Liguei o rádio do carro na minha rádio favorita. Para minha surpresa, o que tocava? Chico Buarque de Holanda, e numa de suas canções de que mais gosto.

“Olê, olé, olé, olá” é linda! E na voz de Chico, na cadência que só Chico sabe imprimir às canções, ela é mesmo uma joia.

Engraçado que conheço essa canção há muito tempo, mas só naquele dia, comum como tantos outros, cercado de horários e compromissos como tantos outros, eu resolvi quebrar o protocolo da rotina e me permiti um momento de profunda reflexão da mensagem daquela canção.

E eu até sugiro, que você leitor, mesmo que já a conheça, a ouça novamente, ela é um bálsamo.

O verso de que mais gostei durante essa minha análise foi: “A dor é tão velha que pode morrer”.

Percebe? Percebe a beleza enrustida nesse verso?

A dor a que somos submetidos diariamente, a dor de ser quem somos e o preço de ser quem somos, a dor da injustiça, do descaso, do desamor; a dor que flagela nosso corpo, nossa alma, ah.... essa dor é tão velha, que a qualquer momento pode vir a morrer.

A nossa existência é tão cercada de dores de todo o tipo, e a música e a poesia e a arte de maneira geral podem servir-nos como bálsamo poderoso.

Alguém muito sábio já disse uma vez que é a arte que nos salva da vida. E acho que seja assim mesmo.

Naquele dia atarefado e comum a tantos outros, a poesia de Chico me salvou. E ainda posso ouvi-lo, dizendo: “Não chore ainda, não, que eu tenho um violão e nós vamos cantar. Felicidade aqui pode passar e ouvir, e se ela for de samba, há de querer ficar...”

A arte é um convite irresistível à felicidade. A arte me salvou, mais uma vez, da monotonia de mais um dia como tantos outros, e Chico segue sendo meu autor preferido, e a estação ainda está gravada no rádio do meu carro, não ouço outra, e o prazer que a redescoberta do poder da contemplação da arte segue me mudando diariamente, porque algumas coisas são perenes, não é mesmo? A dor, não, um dia ela acaba!

 

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões: ana1lugar@yahoo.com.br

 

 

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