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Vamos tentar ser humanos?

Por Ana Raquel Fernandes

 

É um homem chorando a morte de sua companheira. É só um homem chorando a morte da mulher com quem conviveu por mais de 40 anos. E você não precisa desfazer-se de sua ideologia política, nem tão pouco mudar de opinião a respeito do caráter dele ou de ambos. Não, você só precisa se lembrar de ser humano.

Faça um esforço. Tente colocar-se no lugar de qualquer homem que acabara de perder o amor de sua vida. Tente colocar-se em seu próprio lugar, afinal, qualquer um de nós estamos suscetíveis a sofrer um AVC a qualquer momento.

Esqueça por um segundo só todo o seu ódio. A ocasião não é para isso. E faça silêncio, um silêncio tão agudo que lhe faça pensar sobre quem somos e o porquê de estarmos aqui. E chore também só de imaginar um dia perder para a morte, essa visitante atroz, o amor da sua vida.

Mas, se por acaso, você tiver desistido de ler esse texto logo de seu início, ou, por algum motivo já não o estiver mais acompanhando em seu pensamento, tudo o que posso fazer é lamentar.

Vivemos dias difíceis, isso é fato, mas é o ódio desenfreado que os têm tornado mais insuportáveis ainda.

E não, por favor, não deduza que eu estou defendendo nada além de nossa fragilidade diante da morte. Você pode até insistir em achar que eu estou, através desse texto, fazendo uma defesa de D. Marisa Letícia ou de seu companheiro Luís Inácio, e se você estiver realmente achando isso, sugiro que releia o primeiro parágrafo.

Não se trata de julgar o quanto eles são culpados pelo que quer que seja, e sinceramente, pouco me importa se você já os julgou e sentenciou... Desejar a morte de uma pessoa é mortificar-se primeiro. Zombar da dor alheia, ridicularizá-la, é no mínimo covarde demais.

Quando me deparo com as manifestações de ódio como as que tenho visto em função da morte da ex-primeira dama, meu coração se entristece e passo a acreditar um pouco menos em nós, enquanto seres humanos. Quando essas manifestações odiosas se dão através da internet, eu redobro minha crença de que, apesar de todo benefício que esta nos trouxe, infelizmente também tem servido para a globalização da idiotice.

Bom, eu já me demorei muito e a intenção desse texto não é convencer-lhe de nada. Mas eu repito:

É um homem chorando a morte de sua companheira. É só um homem chorando a morte da mulher com quem conviveu por mais de 40 anos.

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva.  Críticas e sugestões: ana1lugar@yahoo.com.br

 

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