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Um menino (Uma reflexão sobre o amor que desperdiçamos...)

Por Ana Raquel Fernandes

 

Era uma vez um menino... Eu o vira uma única e transformadora vez, enquanto fuçava o lixo próximo à minha casa. Era um menino diferente, tão diferente que não sei explicar muito bem o porquê. Não sei se eram seus olhos vivos, apesar da morte que o rondava, ou suas mãozinhas ágeis a tatear, selecionando o que lhe serviria daqueles excessos todos lançados às lixeiras. Mas aquele menino seguramente tinha algo de especial.

E eu sempre penso nele e em sua aparição, quando cessam as épocas de festa. Eu sempre penso que ele podia ter tido uma casa onde ceiar, ao invés de ter de se submeter aos restos de seus irmãos. Eu sempre penso que ele é o retrato do nosso descaso e da nossa arrogância. Sim, porque até mesmo as festas de fim de ano viraram motivo para ostentarmo-nos daquilo que temos ou podemos oferecer aos nossos, mas, esquecemo-nos daqueles que por não pertencerem àquilo que chamamos família de sangue, são deixados de lado, como se não tivéssemos nada aprendido com aquele outro menino, que desceu à Terra para nos ensinar a sermos todos irmãos.

Eu não sei o paradeiro daquele menino, e confesso que isso me inquieta. Fico imaginando se terá conseguido comida suficiente para manter-se vivo, se teria irmãos mais novos, esperando-o ansiosos, se teria pai, se teria mãe. E se o pai dele estivesse preso? Ah, vivemos dias tão cruéis, em que as pessoas estão celebrando a morte de outras, como se nosso país já tivesse em sua legislação a punição da pena de morte. É um ódio tão profundo, que eu acho, não pouparia o pai daquele menino.

O outro menino, o santo menino nazareno, foi ele quem nos ensinou a orar pelos encarcerados, como se estivéssemos encarcerados junto com eles, mas como se andamos desejando que morram?

Os meninos sempre me ensinam lições importantes... O menino do lixo me lembrou o quão mesquinhos nos tornamos. O menino de Nazaré, aquele cuja vinda celebramos em meio a comilanças e desperdícios, sempre me ensina sobre humanidade, empatia e compaixão. Ele me desafia diariamente a amar meu próximo e desfazer-me da minha pose de santidade para dar espaço à compaixão que surge da chocante realidade de que sou tão pecador quanto todos os homens. E que não há nada em mim que me difira dos demais ou me torne especial diante de um Deus, que escolheu me amar sem que eu tivesse mérito algum.

Talvez eu nunca mais encontre o menino que buscava no lixo seu sustento, mas o menino nazareno eu encontro implacavelmente todos os dias. Às vezes sob a figura de um morador de rua, um pedinte, um velhinho desamparado, uma mãe solteira estigmatizada pela hipocrisia da sociedade, ou até mesmo nos restos que lanço para fora do meu prato e nego ao meu irmão. Jesus é de uma doçura implacável, quem a experimenta não consegue permanecer indiferente às suas manifestações.

 

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões: ana1lugar@yahoo.com.br

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