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Boas Novas

Por Ana Raquel Fernandes

 

“Eis que vos trago boas novas de grande alegria”, dizia o anjo travestido de mendigo, mas ninguém o ouviu. Estavam todos aturdidos, as mãos abarrotadas de sacolas cheias de vazios, apressados em consumir o dinheiro que mal acabaram de receber.

“Eis que vos trago boas novas de grande alegria”, dizia o anjo travestido de mulher, com o rosto marcado de sangue pela fúria do companheiro, mas ninguém a ouviu. Os homens passavam por ela com a mesma indiferença com que veem ainda hoje aquela que no princípio foi idealizada para ser sua igual.

“Eis que vos trago boas novas de grande alegria”, dizia o anjo travestido de criança, mas ninguém o ouviu, calaram-lhe a boca com um doce e trataram logo de entreter-lhe com um celular.

“Eis que vos trago boas novas de grande alegria”, dizia o anjo travestido de homossexual, e cuspiram-lhe a face, e o ofenderam e lançaram-lhe ao chão.

“Eis que vos trago boas novas de grande alegria”, dizia o falso pastor engravatado, e o povo todo, como que hipnotizado pelo lobo em pele de ovelha parou para ouvir, e entregou os bens, e entregou a alma a ele, sem saber que a Mamom é que os entregava. As tais boas novas estavam um tanto quanto distorcidas, porque para alcançá-las era necessário pagamento. Mas os homens cegos, deixaram-se guiar por outro cego...

“Eu sou as boas novas de que os anjos falaram”, disse o próprio Senhor, e poucos lhe deram ouvidos, e acusando-o de mentiroso, o assassinaram.

É preciso ouvir, ouvir com atenção e discernimento. É preciso ouvir a voz dos que clamam em Aleppo, é preciso sentir as narinas tomadas pelo cheiro do sangue de nossos semelhantes. É preciso voltar a atenção e a alma para o horror do qual também somos cúmplices.

Parece não haver boas novas para Aleppo e isso me entristece de forma profunda. Mas talvez, seja só minha ótica limitada que me impede ver esperança em situações cruéis como essa. Talvez, não.

Talvez o menino bendito esteja agora caminhando por entre as ruas em ruínas da cidade destruída, buscando por sobreviventes, ajudando nos socorros. Talvez até, criança sadia como é até já tenha feito um amiguinho em meio aos pequenos moradores e o esteja consolando, enquanto ele chora a morte dos pais.

Talvez esteja pedindo encarecidamente a seu próprio pai que perdoe àqueles homens pelo que eles têm feito, porque em sua concepção infantil, é muito, muito errado.

Talvez ainda nem tenha nascido e Maria o esteja esperando em meio a dores, Ele que é a esperança desse mundo desesperançoso. Mas também não há quem ouça seus gemidos de dor em meio a tanto barulho.

E eu me sinto perdida e triste, enquanto escrevo esse texto. É como se cada palavra que surge no teclado de meu computador fosse em vão.

Senhor dos pobres, dos desgraçados, dos marginalizados, das crianças, das mulheres, Senhor dessa inútil serva sua, tem piedade daquilo que nos tornamos.

 

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões: ana1lugar@yahoo.com.br

 

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