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Compasso

Por Ana Raquel

Estava dirigindo meu carro, ouvindo a Rádio USP, que tocava o maravilhoso Chico, quando me peguei cantando, junto com ele, a letra de “Quem te viu, quem te vê”... Sim, esse é um fato comum em se tratando de mim, quando gosto da música, ouso acompanhar o intérprete, mesmo sendo ele do quilate de um Buarque de Holanda.

Quem conhece a canção, sabe que trata-se de um samba, e portanto, com ritmo bem marcado, ao longo do qual Chico brinca com sua voz e letra impecáveis. E eu acompanhava, parada no sinal, esse ritmo, batucando o volante.

Foi aí, que por alguns segundos, desprendi-me um pouco da canção e, olhando para frente, ansiosa pelo verdejar do sinal, notei um motoqueiro, que esticava e contraía uma das pernas, talvez por causa de câimbras, não sei, mas o fato é que ele pareceu-me estar também seguindo o ritmo de Chico, nesse seu exercício de relaxar a perna. Verdade, batiam certinho, seu movimento, minha batucada e a batucada do samba de Chico ao rádio.

E aí eu pensei, como é que pode? É muita sincronicidade... Ele nem está ouvindo a música...

E como vocês, meus diletos leitores já devem saber, meu cérebro ansioso, no mesmo instante formulou uma explicação esquizofrênico-poética para tal evento.

E eu penso mesmo que isso seja real, que todos nós estejamos ligados de alguma forma, e apesar de nossa aparente inconsciência para esse fato, estejamos sim, “batucando” ao mesmo ritmo, que infelizmente, não é o do samba do Buarque.

E olhei ao meu redor, e vi pessoas em suas atividades rotineiras, agindo como se não percebessem o quanto estamos todos nós conectados, de alguma maneira.

O que eu sinto e penso e falo a respeito de meu semelhante é o que move os elos a que estamos graciosamente presos uns aos outros, como irmãos que somos desde sempre.

A despeito de todo nosso ódio gratuito, de nossos rancores mais intrínsecos e todos os nossos preconceitos arraigados, ainda há algo que resiste a tudo isso e nos lembra que somos irmãos, irmãos peregrinos dividindo um mesmo tempo e espaço numa terra que nos é estranha.

Nossos corações, ainda que nem nos lembremos deles, tão envolvidos que estamos nas tarefas de ganhar e gastar dinheiro, ainda pulsam compassados uns com os outros e em quase que perfeita sintonia com o coração do Criador.

Estamos sim, ligados ao nosso próximo e semelhante, mesmo que tenhamos nos esquecido disso e mesmo que muitos o neguem. Somos um só naquele que nos fez irmãos.

E quem me lembrou dessa máxima bendita foram: o samba de Chico e a perna inquieta do motoqueiro com câimbra. Eu estou sempre atenta, observando detalhes, rastros do divino no meio de nós. Você pode considerar bobagem ou até mesmo que achar doida, mas prefiro assim.

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões: ana1lugar@yahoo.com.br

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