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Peculiaridades

Por Ana Raquel Fernandes

 

Esse texto que você está prestes a ler me veio à mente enquanto assistia ao belíssimo filme “O lar das crianças peculiares”. Foi identificação do começo ao fim.  Foi poesia do começo ao fim. Confesso que não li o livro que deu origem ao filme ainda, e devo mesmo fazê-lo em breve, então, não vou tecer comparações entre uma obra e outra, mas posso afirmar que a experiência com o filme foi sublime!

Os peculiares, como são chamados aqueles que nascem com “dons” especiais são obrigados a esconderem-se do mundo a fim de não serem mortos. E o inimigo maior está entre seus iguais, outros peculiares que desejam caçá-los.

A fotografia do filme é magistral. Como não se comover com a menininha que tem uma bocarra do lado de trás da cabeça, ou com os gêmeos tão igualmente graciosos, cuja peculiaridade é transformar tudo que veem em pedra, ou com a menina que tem domínio sobre o ar e tem de usar sapatos de chumbo para não sair voando por aí, ou a ruiva cujas mãos pegam fogo e por isso tem de escondê-las sob luvas boa parte do tempo. Há também o menino que projeta seus sonhos ou profecias através de seus olhos, e aquele que pode dar vida a seres inanimados, colocando-lhes um coração ao peito, sem contar o que tem abelhas dentro de si, e nos ensina a ficar sempre de boca fechada.

É uma turma deliciosamente linda! Assim como sua tutora, a Srta. Peregrine, cuja peculiaridade é transformar-se em ave e dominar o tempo.

Quanta poesia e beleza em um só filme. Confesso que por muitas vezes ao longo da história que ia revelando-se diante de meus olhos de criança atenta e também peculiar, desejei ser aquela tutora, desejei proteger também todos aqueles, que por alguma razão são considerados peculiares.

E dessa forma, fui estabelecendo um paralelo entre o mundo fantasioso do filme e a nossa realidade.

Na história, todos acreditam que os peculiares morreram após um bombardeio alemão, mas o que ninguém desconfia é que Miss Peregrine usou de sua peculiaridade para parar o tempo instantes antes do ataque e retomá-lo só depois de estarem todos em segurança. Ela criou uma fenda no tempo.

E aí, eu, peculiarmente doida como sou, fiquei imaginando como nosso mundo anda carente de fendas e de gente peculiar. Eu mesma desejei criar uma fenda em Aleppo.

Eu sei que soa como uma infantilidade minha, mas muitos de nossos irmãos também tem sofrido nas mãos daqueles que deveriam protegê-los. Muitos de nós, peculiares em potencial, temos sido ao longo dos anos dizimados, se não por armas mortais, pelo descaso e pela ignorância do preconceito que insiste em marginalizar aqueles que são “diferentes”.

O avô de Jacob, personagem principal da história, é dotado da peculiaridade de conseguir enxergar os monstros sanguinários cujo objetivo é matar os peculiares, alimentar-se de seus olhos para voltar à sua forma humana.

E podem dizer que sou louca, mas consigo enxergar muita semelhança entre a fantasia e a realidade nessa alegoria. Os loucos, os esquizofrênicos, pessoas que enxergam coisas que nós não enxergamos sempre foram marginalizados e até , quando na verdade, os “sãos” é que deveriam apropriar-se dessa visão de mundo deles para tornarem-se mais humanos. É, eu sempre enxerguei muita poesia na loucura, e não de forma irresponsável, não. Tenho ciência da necessidade do tratamento medicamentoso, que por sinal, muito difere das práticas violentas do passado da medicina, mas há em mim desde sempre um eterno fascínio pela loucura. Eles, os loucos, podem ver aquilo que nós não enxergamos.

Eles são livres e a poesia flui neles da forma mais intensa possível. São seres peculiares que abençoam nossa existência com a sua. Ah, como eu queria ser capaz de criar também fendas que os defendesse de nós.

Eu queria pertencer a um lar de crianças peculiares, onde todas, todas elas sem exceção fossem acolhidas, as sírias, as palestinas, as brasileiras...

Quisera eu ter a peculiaridade de ser eu mesma uma fenda na vida de alguém, um lugar seguro, onde o mal que em nós habita não pudesse penetrar.

Sejamos fendas! Celebremos a peculiaridade de sermos quem somos!

 

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões: ana1lugar@yahoo.com.br

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