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A vida é um rio

Por Ana Raquel Fernandes

“Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n’água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.

 

Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio”.

Trecho de “A terceira margem do rio” – Guimarães Rosa

 

Tenho pra mim que a vida é um rio, ora calmo, ora caudaloso, cuja correnteza orienta nossos destinos, sem que tenhamos sobre ela o menor domínio. A vida nos enlaça em suas águas desde o nascimento, quando no ventre de nossa mater, envoltos que estamos naquele universo silencioso e úmido. A vida segue nos chacoalhando no chicote de suas ondas, enquanto existimos nessa Terra.

Nossa existência é um rio, que corre a fim de convergir, no final, no maior de todos os rios, no rio infinito, onde tudo que vive e viveu um dia retorna à sua essência. E só lá, nesse rio infindo, cujas margens são revestidas de flores multicoloridas e onde os animais, selvagens ou não, afinal, fomos nós que lhes atribuídos esse adjetivo, reúnem-se para saciar a sede, curvando-se diante da magnificência do oculto; só lá há vida realmente.

O rio é nosso lar primeiro. Viemos da água e do pó, que numa mistura santa modelaram nosso ser. Ao pó retornaremos alguns primeiro, mas nosso destino final, e porque não dizer, nosso reinício dar-se-á mesmo é nas águas.

As águas que correm no jardim do Altíssimo são serenas, e delas nenhum rumor se escuta, além de um burburinho gostoso que embala o sono daqueles que acordaram para a plenitude da vida eterna.

O correr do rio da vida nos conduz a essas águas silenciosas. Morrer nada mais é do que ser conduzido por essas águas para a presença do Senhor de todos os rios, diante de quem as correntezas e as ondas não passam de crianças travessas, e a quem elas obedecem como a um pai, por respeito e insignificância.

Essa nossa vida aqui, não se enganem, não é nada se comparada àquilo que ainda viveremos.

Aqui, mesmo que imersos vez por outra em águas turbulentas, ainda estamos à margem do rio maior, apenas à margem da vida plena.

E é sem aviso que a ela somos conduzidos em definitivo, afinal, aquele que nos amou desde o início, não gosta muito de cerimônias, nem tão pouco de despedidas. Ele quer mesmo é que vivamos tão bem aqui e tão cheios dEle, que esse encontro, quando chegada a hora, seja o mais natural possível.

 É desejo dEle que nossas ações, enquanto residentes dessa Terra, apontem justamente para Ele e para esse encontro esplendoroso com aquilo que Somos.

Mesmo assim, confesso que ainda não sei lidar muito bem com o calendário do Altíssimo. Não sei quais critérios usa e o porquê de “adiantar” segundo a minha lógica, alguns deles. Seus desígnios soam para mim quase tão insondáveis quanto o fundo de um rio lamacento.

Mas sei também que, limitada pela visão desse mundo e do momento presente, destoo muito daquilo que Ele enxerga.

Sou só um pequeno peixe habitando suas águas profundas, silenciosas e escuras. Vivendo e preparando-me para nosso encontro final, quando todas as águas, assustadoramente revoltas, convergirão para o Grande Rio, que corta seu jardim. Lá, minha alma, nossas almas encontrarão repouso e vida realmente plena.

Lá, no Grande Rio do Altíssimo é que a vida começa de verdade!

 

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões: ana1lugar@yahoo.com.br

 

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