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O país dos ipês

Por Ana Raquel Fernandes

 

Caminhando hoje na companhia de ipês majestosos e de um amarelo que chega a doer os olhos, quando contrasta com o azul do céu, estive pensando. Na verdade, eu caminho pensando e ando pensando muita coisa ultimamente.

Uma das coisas em que pensei foi na brutalidade e grosseria de nossos dias e em como delicadezas como o ipê, permanecem imunes a elas. Lembrei também que o ipê só se revela assim, magnífico, abarrotado de flores em uma época do ano e cheguei à conclusão de que a natureza é mesmo sábia, afinal, presentear-nos uma vez ao ano com um espetáculo tão belo, justo a nós que nada entendemos de beleza ou delicadezas é mais do que suficiente.

A mim, a florada do ipê relembra da própria mutação da vida e é o que basta para tornar os dias de setembro mais amenos.

Vivo num país grosseiro, que oferece flores às suas mulheres apenas após cometer ou compactuar com seu feminicídio. Um país que oferece traição ao invés de gentilezas à mulher que até há pouco dirigia a nação.

Vivo num país onde imperam o ódio e a intolerância. E num país assim, parece não haver razão, nem tão pouco espaço para a sutileza da florada do ipê. Mas há. E minha pouca esperança reside nisso: sempre haverá espaço para as sutilezas da vida, enquanto houver um único coração que com ela se encante e se alegre.

E de um coração encantado e alegre, sempre brotará uma prece de gratidão, à qual o Criador responderá com mais flores e mais sutilezas, em meio ao caos de nosso cotidiano marcado pela indiferença.

Sempre haverá o ipê e sua santa metamorfose nos lembrando de quem somos, a despeito daquilo em que pretendem nos transformar. E eu sigo, na companhia dos ipês, aprendendo da vida e da urgência de vivê-la de forma a trazer significado e beleza à vida do meu próximo e semelhante.

Acho até que a florada do ipê é proposital... Depois de um longo agosto, ela chega e enche as ruas e as almas de um colorido impossível de passar despercebido. A despeito de toda grosseria desse país que segue retrocedendo, o ipê floresce e oferece sua beleza a todos os olhos.

 

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões: ana1lugar@yahoo.com.br

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