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Poeira e sangue

Coluna Ana Raquel

Por Ana Raquel Fernandes

 

Onde estávamos nós quando um de nossos pequenos sentiu na carne o horror da guerra? 

Onde estávamos afinal, que não fomos suficientemente bons para protegê-lo de nós mesmos? 

Quais eram nossas prioridades naquele dia? Lembrávamos por acaso da existência da Síria? Ou estávamos, como quase sempre estamos, voltados para nossas futilidades e nosso próprio umbigo? 

Quando o horror se apresenta sob a imagem de um garotinho de cinco anos, nitidamente em estado de choque, depois de ter sua casa e seus amados atingidos por um ataque aéreo, o que toma meu ser é um sentimento de profunda vergonha e tristeza, e justamente nessa ordem. Vergonha porque não passamos de uns vermes que se alimentam de sonhos de crianças, que roubam a inocência para dar lugar ao lucro, que ferem seus próprios irmãos, sob a justificativa de uma guerra infindável e insana. 

Omran Daqneesh, o menino da foto, sobrevive, mas seu irmão, de dez anos, não teve a mesma sorte. E infelizmente, é assim mesmo, estão nossos irmãos e irmãs sírios entregues à sua própria sorte e ao desatino de um mundo tresloucado. 

Onde estávamos nós?  É a pergunta que ecoa sem resposta dentro de mim. 

E simplesmente não admito que alguém ouse transferi-la e junto dela a culpa a qualquer deus que seja. Se alguém, dentre nós, ousar questionar onde estava Deus no momento em que nossa bestialidade feria crianças na Síria, eu ouso responder que ele estava lá, o tempo todo, porque, diferentemente de nós, seus acovardados filhos, ele não se ausenta, mas também não se responsabiliza pela dureza do coração de seus filhos tão desviados de sua semelhança. 

E talvez dessa forma a pergunta mais válida seja: O que eu fiz com o Deus que habita em mim, que lugar vergonhoso eu lhe coloquei que Ele não mais se mostra através de meus atos? Será que o tenho substituído por meu ego e minha sede de poder, a ponto de não mais notá-lo, nem tão pouco mostrá-los aos homens? 

Talvez, Deus estivesse ali naquele cenário tenebroso, na figura de um paramédico, ou de um enfermeiro, talvez, no silêncio assolador depois do barulho das bombas, ou no silêncio do próprio menino em estado de choque. Ele estava lá, Ele está dentro da alma pura de Omran, e agora está mais pleno que nunca, em plena comunhão com a alma de seu irmão, Ali Daqneesh. 

Ele estava no rostinho sujo de uma mistura de poeira e sangue do pequeno garotinho sírio. Ele está no sangue que corre na veia dos homens bons e maus. Não o culpemos. Antes, busquemos em nós mesmos as respostas para tamanha atrocidade. E enquanto travamos essa busca, não nos esqueçamos de nossos irmãos sírios, em momento algum.

 

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões: ana1lugar@yahoo.com.br

 

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