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ARROGÂNCIA

“É que, de todos os instrumentos de controle e coerção social, a linguagem talvez seja o mais complexo e sutil. Para construir uma sociedade tolerante com as diferenças é preciso exigir que as diversidades nos comportamentos linguísticos sejam respeitadas e valorizadas”.

Marcos Bagno

 

Por Ana Raquel Fernandes

“Não existe peleumonia e nem Raô xis”, dizia a letra do jovem médico Guilherme Capel Pasqual, num receituário de um hospital de Serra Negra-SP, em foto postada em sua rede social.

O intuito da publicação? Zombar da fala de um paciente, o Sr. José Mauro de Oliveira Lima.

Sabe, Guilherme, não vou chamá-lo de doutor, porque não sei ao certo se você já atingiu a graduação do Doutorado e é mesmo um costume brasileiro cometer esse erro ao chamar assim a qualquer um. Mas vou dizer-lhe uma coisa, também não sou doutora, sou uma reles professora de Língua Portuguesa da rede pública de ensino e, por isso mesmo, não me julgo melhor que ninguém, mas há algo que não posso deixar de dizer-lhe:

Peleumonia existe sim, Raô xis, também. Seu paciente, de quem o senhor zombou pela forma diversa de falar, estava correto. Afinal, como bem sabe quem leu o mínimo sobre Linguística e os vários registros da fala, nela não há erro. O senhor além de ridicularizar o distinto senhor, ainda cometeu preconceito linguístico, e pior, foi o senhor quem cometeu erro ao grafar as palavras como fez, a fim de humilhar o paciente, porque, pasme, na escrita sim, há erro, pois ela é regida por uma norma.

Eu fico chocada ao ver como as pessoas tem se sentido à vontade para julgar e condenar outro e também expô-lo nas redes sociais. Parece mesmo que essas benditas redes, essa bendita internet serve-lhes de palco para suas crueldades. A internet tornou-se um espaço público para o ódio descarado e para as maiores bestialidades que tenho lido.

Esse médico não é o primeiro a utilizar-se dessa ferramenta para ferir seu semelhante, não, mas o que me indigna é sua postura enquanto profissional da saúde e ser humano, já que a meu ver, as duas coisas estão, ou deveriam estar intimamente ligadas.

Aliás, caro médico, sugiro-lhe a leitura de “Preconceito linguístico, o que é, como se faz”, do excelente Marcos Bagno...

Enquanto os competentes médicos cubanos nos deixam, ficam esses playboyzinhos em seu lugar, que nada entendem do povo, nem de suas necessidades, nem muito menos de empatia e amor ao próximo.

“Preconceito linguístico”, eis a lição de hoje para o jovem e arrogante médico. Mais humanidade e empatia são lições para aprendermos todos os dias.

 

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva.

Críticas e sugestões: ana1lugar@yahoo.com.br

 

 

 

 

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