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Sobre estilhaços...

Por Ana Raquel Fernandes

 

A vida sempre nos reserva surpresas, sempre. Na sua estrada, não são raros os incidentes, por assim dizer, um tanto quanto desastrosos ou frustrantes, mas o que ela quer e requer da gente é coragem, não é mesmo?

Uma pedra no parabrisa, por exemplo, pode ser um desses desastres cotidianos. Ver que o caminho fincado no vidro pela pedra aumentou e se estendeu por quase metade da área dele, então, é frustrante.

Mas há sempre alguma beleza nisso tudo. Eu achei simplesmente lindo o desenho dos raios de sol, passando pelo vidro ferido pela pedra suicida. Aliás, foi só assim que percebi ter aumentado o estilhaço. O sol do meio-dia, alto, altivo, doído como ele só, passava pelo corte no vidro e se multiplicava em tantos outros pequenos sóis, em forma de raios tão vívidos, que, por um momento me entreguei à beleza daquela cena e até me esqueci de que vou ter de pagar quase duzentos reais pelo conserto...

Às vezes, algo em nós também se quebra, e até daquilo que aparentemente está roto, Ele sabe extrair beleza. E é justamente quando o estilhaço aumenta, que ela mais se destaca.

Eu tenho momentos de ruptura em minha vida, e também momentos de reconhecer a beleza dos estilhaços. Afinal, eu tenho aprendido isso na prática, visto que Ele é um professor magnífico em sua didática.

O que não pode se macular é nossa alma.

Somos alma, o resto é apenas um invólucro. E se ele, frágil como é se permite quebrar, cabe a nós não permitirmos que nossa essência se aflija com os estilhaços. Antes, cabe a nós permitirmos que ela se deslumbre com a beleza que o aparente caos é capaz de gerar.

Somos almas feitas para a Eternidade e para a Beleza. Por isso, antes mesmo de lamentar pelo prejuízo do vidro ou de minhas próprias perdas, eu agradeço a beleza de sentir minha alma viva e alegre, apesar de quaisquer estilhaços.

Agradeço a pontaria daquela pedrinha suicida, agradeço por sua coragem em se lançar num voo incerto em direção a meu carro. Ela me ensinou muito, justamente num momento em que eu precisava aprender e relembrar algumas verdades.

Agradeço ao sol, que percorrendo o caminho da fissura no vidro me lembrou da beleza que resiste sempre, apesar de qualquer aparente desastre.

Agradeço ao criador do Sol, meu Senhor e Senhor da estrada, da pedra, da vida e da Eternidade. Obrigada, Senhor, pela pedra, pelos desastres todos, pela fissura que pode sim corroer um material, mas jamais minha essência.

Sou grata por tudo, certa de que tudo, sem exceção colabora para meu bem.

 

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões: ana1lugar@yahoo.com.br

 

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