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O lugar do outro ou... Uma visão de Corpus Christi

Por Ana Raquel Fernandes

 

“Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém”.

Mateus 28:20

 

Era um dia pós-feriado, pós-feriado de Corpus Christi, e eu e meu irmão resolvemos ir a São Paulo, imaginando estarem as ruas de comércio vazias. Queria ir à 25 de março, porque sim, eu adoro umas comprinhas baratas.

O que não esperávamos era o trânsito. Que trânsito, já logo na entrada da capital. Nossas previsões estavam erradas, São Paulo não estava vazia, mas repleta de gente, se é que se pode assim dizer.

Mas isso não atrapalhou nosso passeio, obviamente que tivemos que nos espremer um pouco em meio a toda aquela multidão de transeuntes e testar nossos tímpanos aos gritos típicos do comércio popular, mas isso é natural na grande, bela e cheia São Paulo.

Confesso que me sinto meio aturdida toda vez que me vejo na selva de pedras. Me sinto pequena, perdida entre prédios tão altos e tanta gente indo e vindo e tanta coisa pra se ver... Fico meio zonza.

Mas observo, como observo. Ajo assim desde sempre, e não é à toa que alguns dizem que tenho olhos muito grandes e expressivos, deve ser pelo constante uso.

Observo tanto, que no caminho do estacionamento, onde deixamos o carro, até a 25, pude observar, no canto da calçada, um senhor. Um senhor, dormindo, enrolado em um cobertor fino, daqueles que lembram os do exército. Ele estava obstruindo parte da passagem, as pessoas tinham de desviar de seu corpo para prosseguir, e não poucas, não sei se por descaso ou distração, vez por outra pisavam em sua coberta.

A pobreza obstrui o fluxo, meus caros. E ela está em toda parte. A pobreza atrapalha, incomoda, nos mostra aquilo que nos negamos a enxergar, aquilo que finalmente, foi escancarado em nosso país à vista de todos ultimamente, e talvez por isso mesmo, as políticas sociais tenham sido tão ferozmente negadas e combatidas.

A pobreza, meus caros, cheira mal. Seu odor pútrido nos faz lembrar aquilo que verdadeiramente somos.

O fato é que, quando retornava depois de algumas horas, não encontrei mais o senhor naquele lugar. Só havia um papelão, forrando o chão e o cobertor num canto. E sendo assim, agora ninguém impedia a passagem dos transeuntes apressados, nem mesmo o papelão, que para mim, indicava claramente ser ali o lar de alguém, mas era, agora pisoteado por quase todos.

Nós não respeitamos o espaço do outro. Nem sequer o reconhecemos como espaço, nem tão pouco o outro como nosso semelhante. Invadimos a casa do outro com nossos pés e todo nosso descaso, como se ele não existisse e fosse apenas parte da parte feia da paisagem urbana.

E eu pergunto: Você gostaria de ter sua cama pisada?

Não, claro que não. Mas também... você não mora na rua, não é?

Era uma sexta-feira, pós Corpus Christi, e eu em minha mente esquizofrênica, cheguei mesmo a ver o próprio Cristo no corpo daquele senhor.

Meu Senhor amado também teve seu corpo pisado, habitou entre os mais miseráveis, e certamente se vivesse entre nós hoje em dia estaria ocupando o lugar daquele senhor deitado sobre um papelão e não em templos suntuosos arrecadando dinheiro dos fiéis.

De fato, Ele estava ali e sua presença me fez compreender o quão vã é nossa vida, cercada de materialismo e consumismo e compras...

E compreendi que nem mesmo sou digna de pisar o chão em que aquele senhor dormia. Meu Senhor estava ali, meu Senhor está aqui, entre nós, sem que o notemos.

 

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões para: ana1lugar@yahoo.com.br

 

 

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