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Posicionamento

“O silêncio diante do mal é o próprio mal”

(Dietrich Bonhoefer)

Tenho pra mim que na vida, temos sempre de tomar um posicionamento. E como sou criticada por isso... Mas, a meu ver, a vida só vale a pena ser vivida quando se tem um propósito e quando ele fica muito claro, através de sua postura e atitudes.

Sempre fui uma idealista, admirei as causas impossíveis. Não é à toa que me afeiçoo tanto ao herói errante Dom Quixote ou ao polêmico e atual Pepe Mujica. E sempre, sempre tive um conceito de justiça muitíssimo arraigado em mim, o que me trouxe sempre muitos problemas, confesso.

Eu gosto do que é justo, do que é correto, doa a quem doer, e sou assim em todos os aspectos de minha vida: como pessoa, como educadora, se é que dá pra distinguir as duas funções, como filha, como aspirante a escritora...

É fato que com o passar do tempo, infelizmente, perdi muito do meu idealismo, mas creio que ele foi substituído, aos poucos, por um senso ainda maior e mais realista de justiça.

E é por isso, que diante dos fatos que se nos apresentam em nosso país, eu preciso posicionar-me. Não sou mais a adolescente idealista e facilmente influenciável de antes, hoje, sou uma mulher que vê com pesar a votação para o impeachment de uma presidente que não cometeu crime para tal.

Repito, não sou nenhuma alienada, sei da corrupção que sempre, sempre existiu em nosso país, mas também não perdi meu senso de justiça. E o que vejo acontecer no meu amado Brasil hoje é o que retrata a fábula que apresento aos leitores nesse domingo histórico.

Imortal, como todo bom escritor é, o atemporal Monteiro Lobato descreveu há muitos anos o cenário que vejo armando-se para esse domingo. Aproveitem a leitura, queridos, enquanto vou ali chorar pela morte da democracia.

O julgamento da ovelha – Monteiro Lobato

Um cachorro de maus bofes acusou uma pobre ovelhinha de lhe haver furtado um osso.

— Para que furtaria eu esse osso — alegou ela — se sou herbívora e um osso para mim vale tanto quanto um pedaço de pau?

Não quero saber de nada. Você furtou o osso e vou já levá-la aos tribunais.

E assim fez.

Queixou-se ao gavião penacho e pediu-lhe justiça. O gavião reuniu o tribunal para julgar a causa, sorteando para isso doze urubus de papo vazio.

Comparece a ovelha. Fala. Defende-se de forma cabal, com razões muito irmãs das do cordeirinho que o lobo em tempos comeu.

Mas o júri, composto de carnívoros gulosos, não quis saber de nada e deu a sentença:

— Ou entrega o osso já e já, ou condenamos você à morte!

A ré tremeu: não havia escapatória!… Osso não tinha e não podia, portanto, restituir; mas tinha a vida e ia entregá-la em pagamento do que não furtara.

Assim aconteceu. O cachorro sangrou-a, espostejou-a, reservou para si um quarto e dividiu o restante com os juízes famintos, a título de custas…

Por Ana Raquel Fernandes

Professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões para:

ana1lugar@yahoo.com.br

 

 

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