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“Zootopia”: Uma reflexão oportuna

Por Ana Raquel Fernandes

 

Amante de animações como sou, aproveitei o festivo momento pelo qual nossa cidade passa, com a abertura de três salas de cinema, e fui assistir ao “Zootopia”.

Eu sempre levo comigo uma expectativa muito alta ao cinema, quando se trata de uma animação, mas, incrivelmente, dessa vez ela foi superada.

“Zootopia” não é um filminho fofo ou medíocre para entreter crianças. Não, “Zootopia” é um retrato nu e cru das nossas corrupções de cada dia, dos engodos e maracutaias que, desde há muito, corroem o corpo já pútrido do poder público, em todas as suas esferas: municipal, estadual e federal.

Na cidade de “Zootopia”, acredita a coelha aspirante, a policial Judy Hopps que todo mundo pode ser o que quiser. Lá é o lugar dos sonhos, da liberdade... No entanto, ela vai perceber, muito frustrada, que “Zootopia” é bem diferente daquilo que a propaganda diz.

Assim como todas as outras cidades, o pseudoparaíso encontra-se entregue a uma política suja, que ela nem de longe supunha existir.

Criada com a ideia de que a sociedade animal se separava em dois grandes grupos arqui-inimigos: presas e predadores, a coelhinha se recusa a aceitar tal máxima e crê mesmo ser possível uma convivência pacífica e harmoniosa entre eles, principalmente em “Zootopia”, onde todos se respeitam e convivem com as diferenças de maneira completamente natural. Apenas as raposas é que ainda não são muito bem vistas, seres traiçoeiros e nada confiáveis que são...

Mas... lá, aparentemente, pouco importa seu tamanho ou componentes biológicos. Lá, você pode ser o que você quiser!

Um prefeito leão e uma vice-prefeita ovelha compõem o cenário perfeito para a propaganda “zootópica”. Presa e predador convivendo harmoniosamente, no comando de uma cidade moderna, amável e futurista.

Ah... As propagandas... Quantos de nós ainda nos deixamos levar por elas. E que estrago elas têm feito ao longo da História...

O fato é que os pré-conceitos resistem, sempre resistem às tentativas de ocultá-los sob a face da perfeição, e de repente, a cidade ideal se vê presenciando episódios de violência extrema. Predadores fora de si atacam as presas com as quais até então conviviam maravilhosamente bem. E o ódio entre as classes é incitado. Velhos valores e pré-conceitos arraigados vêm à tona. Presas e predadores voltam ao estágio retrógrado de inimigos odiosos. A cidade está dividia, o ódio impera!

O leitor consegue notar alguma semelhança com nossa atual situação política?

O que não se sabia é que tudo aquilo em “Zootopia” não passava de um plano maquiavelicamente arquitetado pela “frágil” vice-prefeita ovelha Bellwether, a fim de eliminar os predadores e colocar o poder nas mãos ou patas das presas, como uma resposta, um recalque de eterno oprimido.

Predadores eram dopados com um veneno extraído de uma flor, que os fazia perder a capacidade de raciocínio e voltar ao seu estágio mais selvagem.

Criava-se assim uma situação de medo, pânico e ódio generalizado contra qualquer cidadão que pertencesse à classe dos predadores.

E não assistimos a espetáculo semelhante em nossos dias? A mídia cria seus próprios heróis e vilões e conduz a grande massa ao erro de assumi-los como tais. Somos, tal qual os moradores de “Zootopia” quase sempre usados por interesses escusos e a serviço do beneficiamento de pessoas inescrupulosas. Estamos nós também odiando nossos irmãos e compatriotas.

Em “Zootopia” todos, todos estavam envolvidos nessa sujeirada armada, e nem se davam conta de estarem sendo usados numa disputa inescrupulosa por poder.

Mais alguma semelhança?

E quanto a nós, pobres mortais que não temos a sorte de ser parte de uma animação. O que faremos nós com todo esse ódio arraigado e trazido à tona?

Defenderemos com garras e dentes a paz, a democracia e o estado de direito de nossa tão amada “Brasiltopia”, ou apenas seguiremos nos caçando uns aos outros, num brutal retorno aos nossos instintos mais primitivos?

É... “Zootopia” rendeu-me uma reflexão e tanto...

 

Ana Raquel Fernandes

Professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões para: ana1lugar@yahoo.com.br

 

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